Ligação de cuidados em Saúde Mental

LIGAÇÃO DE SAÚDE MENTAL AOS CUIDADOS PRIMÁRIOS
 
 
Introdução
Objectivos
Estratégias
Resultados
As perspectivas dos profissionais
A ligação aos olhos do Psiquiatra
O papel do Psicólogo clinico-1
O papel do Psicólogo clinico-2
A perspectiva do Médico de Família

Introdução
A ligação em saúde mental foi pela primeira vez referida na literatura na década de 60 e, com esta, pretendia-se inicialmente definir o papel e as actividades do psiquiatra em áreas não-psiquiatricas de um hospital geral, mais tarde essas noções foram aplicadas a outros ambientes como as Casas de Saúde e os Centros de Saúde.
A proliferação do conhecimento na área da Saúde Mental e por outro lado a fragmentação a que se assiste nomeadamente quanto a saberes e competências pelos vários profissionais envolvidos, tem levado á constituição de equipas multidisciplinares a laborar na área da Saúde Mental.
Entretanto, se por um lado se tem verificado um deslocar dos serviços de saúde mental dos hospitais psiquiátricos para hospitais gerais, também por outro houve necessidade de se constituírem equipas multiprofissionais capazes de fazer a ligação em saúde mental entre os vários serviços. Esta ligação compreende uma componente hospitalar e uma componente de ligação aos cuidados primários.
Ao nível da ligação aos cuidados de saúde primários, a equipe de ligação é constituída habitualmente por profissionais da psiquiatria, da psicologia e da enfermagem e entretanto alguns questionam a utilidade de integrar, nestas equipas, profissionais de outras áreas como o serviço social.
Estas equipas dirigem-se á comunidade onde podem desenvolver a sua actividade em instalações próprias dos Centros de Saúde ou dele dependentes. Deste modo verifica-se uma melhor articulação aos vários níveis envolvidos nomeadamente os directores, profissionais e útentes.
  
Objectivos
A ligação aos cuidados primários de saúde e á comunidade, vem satisfazer necessidades de saúde mental que se observam na consecução de dois objectivos fundamentais:
1- Para o utente vê-se assim melhorado o acesso aos Cuidados de Saúde Mental pela aproximação ao Centro de Saúde. Também se atenua, deste modo, o estigma da doença mental pela prestação de cuidados em ambiente menos formal.
2- Para a entidade prestadora de cuidados de saúde procura-se, deste modo, controlar os gastos económicos aos vários níveis da Saúde Mental pela diminuição do número de internamentos com manutenção ou até melhoria da qualidade dos cuidados prestados.
 
Estratégias
Para atingir os objectivos, têm-se verificado três tipos de estratégias fundamentais que abordam e justificam a gestão da relação entre a equipa de saúde mental e a comunidade de profissionais e utentes:
1-  A equipa de saúde mental dirige toda a sua atenção e actividade para o doente e, por isso, faz consultas em ambiente de ambulatório deslocado para a comunidade usando ou não, os gabinetes dos médicos de família. Nesta situação os doentes são enviados a consulta principalmente a partir do hospital e o psiquiatra quase não contacta com os médicos de família.
2-  O psiquiatra, no Centro de Saúde, procura o médico de família para, em conjunto, resolver casos clínicos concretos.
3-  Cada profissional da saúde mental orienta a sua actividade no sentido de estabelecer elos de ligação com equipas multiprofissionais ao nível dos cuidados primários de saúde procurando uma maior funcionalidade situacional destas equipas. A sua relação directa com o doente estabelece-se no ambito de todas as transacções interpessoais dos membros da equipa envolvida com o doente
 
Entretanto os melhores resultados têm surgido com uma estratégia de combinação em que a equipa de saúde mental na comunidade realiza consultas de ambulatório a doentes provenientes do hospital, procurando o Médico de Família para abordar, em conjunto, os doentes mais problemáticos.
Simultaneamente a ligação promove a realização de Sessões Clínicas em grupo no sentido de alcançar a melhor solução.
Muitas outras actividades podem ser realizadas no sentido de promover a saúde mental, prevenir a doença aos vários níveis (primário, secundário e terciário) e permitir uma melhor reintegração social e familiar. Por exemplo ensinando familiares de esquizofrénicos sobre esta doença assim como o modo de interagir com eles no sentido de prevenir as recaídas após a alta do internamento hospitalar.
 
 Resultados
Os melhores resultados no sentido dos objectivos acima descritos têm sido alcançados com as estratégias de combinação, de facto, é com esta abordagem que mais se tem verificado uma redução dos internamentos em situações como doença depressiva e perturbações da personalidade; entretanto os primeiros internamentos por esquizofrenia têm-se mantido, no entanto, com taxas de reinternamento muito diminuídas.
 
As perspectivas dos profissionais
No ambiente multiprofissional que a ligação aos cuidados de saúde primários envolve são, de seguida, abordadas algumas perspectivas que procuram espelhar e representar o que seriam os sentimentos, atitudes e conhecimentos de alguns intervenientes mais significativos, nomeadamente Médico de Família, Psiquiatra e Psicólogo.
 
 
A Ligação aos olhos do psiquiatra
 
A grande dimensão dos problemas de Saúde Mental na comunidade é claramente sentida por aqueles que trabalham na área dos Cuidados Primários de Saúde. Trata-se de uma situação por demais evidente.
 
Assim, aparentemente, as razões pelas quais não se pensou (ou não se actuou) há mais tempo em colocar os técnicos de Saúde Mental no terreno, junto com os Cuidados de Saúde Primários, terão sido o comodismo e o hábito (todos os hábitos se tornam em vícios com o tempo) de estar sentado do outro lado da secretária, à sombra das paredes da instituição psiquiátrica e com o poder do hospício por detrás.
 
Qualquer psiquiatra que tenha trabalhado junto dos Cuidados de Saúde Primários se apercebeu certamente da necessidade da sua presença e intervenção. Claro que é bom existirem números que quantifiquem os casos, a fim de termos onde basear as nossas decisões de intervenção. No entanto, esta necessidade de que falamos é tão óbvia que seguramente podíamos actuar primeiro e contar os casos depois.
Foi, de resto, assim que muitos fizeram, acabando por pôr ainda mais em evidência a importância deste tipo de serviço. É que, em geral, quando se criam os cuidados, os clientes começam a surgir em maior número. Se já vimos isto acontecer em áreas onde se supunha que as carências eram pequenas (e onde, após os serviços adequados estarem instaurados, a procura revelou uma dimensão insuspeitada do fenómeno) calcule-se o que acontece quando os cuidados são implementados para dar resposta a uma necessidade fortemente sentida e, neste momento, já quantificada como muito importante.
 
Certamente que todos os que trabalham em Psiquiatria de Ligação já concluíram que é junto dos Cuidados de Saúde Primários que o filão se encontra. É que, se por um lado a procura destes serviços já é grande, por outro muitos doentes nem se apercebem da qualidade do seu sofrimento ou, apercebendo-se dele, não recorrem aos cuidados de Saúde Mental devido a estes não estarem adequados às suas necessidades (acessibilidade, imagem social, humanização, publicitação, custo, …).
 
O psiquiatra de ligação deve ter um papel importante aquando do desenho destes serviços. A consciência, por parte do utente, da natureza do que o aflige, bem como a consciência do médico que o assiste para estar atento aos fenómenos da vida mental do seu paciente, são de primordial importância. O bem-estar do utente, incluindo a melhoria do quadro sintomático com que ele se apresenta na consulta, é o alvo da actuação do psiquiatra, quer ao difundir mensagens de Saúde Mental junto dos utentes quer participando na sua própria formação contínua. Esta última é uma actividade particularmente enriquecedora já que lhe permite aperceber-se melhor das carências dos utentes, dos serviços e da sua própria actuação.
 
A ideia do psiquiatra que está no hospital (seja ele psiquiátrico ou central) e a quem se pode recorrer, não é a mais adequada. O psiquiatra deve estar em presença porque, claramente, o problema de Saúde Mental na nossa população tem hoje uma dimensão que o exige.
É então que convém esclarecer e motivar o doente, antes que outro tipo de cuidados mais físicos implemente a ideia de que tratar o sintoma pode resolver o assunto. É também nessa ocasião que os serviços de Saúde Mental melhor podem ser publicitados através da sua desmistificação e do anúncio da sua acessibilidade, mesmo ali no Centro.
 
Parece-nos igualmente evidente que muitos dos males a nível da saúde mental dos utentes que recorrem aos Cuidados de Saúde Primários radicam na sua qualidade de vida. As condições de vida das pessoas que vivem nas sociedades de consumo deixam, frequentemente, muito a desejar. E não nos referimos só àqueles que fazem parte dos “extractos sociais menos favorecidos” e que enfrentam obstáculos físicos ao desenvolvimento de um estilo de vida saudável, também a nível da sua saúde mental. Referimo-nos a todos aqueles que são diariamente bombardeados com mensagem tão próprias da sociedade de consumo, que difundem filosofias e crenças (encapotadas como sendo não filosóficas nem dogmáticas, na realidade apresentadas como não sendo sequer ideias mas sim factos e que, como tal, só têm de ser aceites) que estão em conflito entre si. O resultado não é só a criação de expectativas completamente inadequadas mas também as resultantes frustrações. O resultado é também a confusão ao nível das ideias e a falta de referências culturais minimamente estáveis que permitam a estabilidade e a posterior evolução cimentada da filosofia pessoal e do grupo.
 
É pois inevitável que o técnico de Saúde Mental (nomeadamente o psiquiatra) se aperceba do seu papel social quando se senta na cadeira do psiquiatra de ligação junto dos Cuidados Primários de Saúde. Daí a partir com a equipa, agora pluridisciplinar, para a comunidade (e aqui a comunidade é mesmo fora das paredes do Centro de Saúde) vai um passo. A Ligação tem como destino inevitável a Educação para a Saúde, a Promoção da Saúde e, em última análise, a intervenção social activa e dirigida à Saúde (física e mental) do cidadão.
 
O Papel do Psicólogo Clínico-1
Na história recente da psicologia, esta adquiriu o seu quadro de referência, constituindo-se como ciência autónoma com objecto, metodologia e estatuto espistemológico próprios. Apesar disto, ainda é confundida com outras ciências com as quais compartilha alguns aspectos metodológicos ou o mesmo objecto de estudo. Se assim acontece um pouco em todas as áreas da psicologia, mais se verifica, esta situação, no campo da saúde. O próprio conceito de "psicologia clínica" torna-se por vezes ambíguo. O termo "clínico" é referente ao indivíduo que está de cama, como referência ao indivíduo que está doente. No entanto atitude clínica não é uma atitude médica.
 
A psicologia clínica entende os fenómenos psíquicos não num antagonismo saúde-doença, mas antes como sendo a expressão possível (para o indivíduo) de diferentes processos psicológicos socialmente contextualizados. Ou seja, relativiza a noção de "mal", "remédio" e de "cura". O acto clínico não é necessariamente um acto médico.
Ao abordar do indivíduo que procura ajuda, o psicólogo clínico intervém contextualizando a problemática em questão. É esta contextualização que confere significado, originalidade e individualidade ao problema. Deixamos de estar perante aquele discurso factual, e por vezes redutor, do "mal", do "remédio" e da "cura" para passarmos a aceder aos fenómenos por um outro caminho. O real vê agora o seu interesse diminuído em detrimento da verdade individual. Movimentam-se as peças de um "jogo de xadrez" assentes num tabuleiro que já não é o da realidade directa mas antes da percepção, do simbolismo e da representação individual dessa realidade. Entramos no campo da relação, do imaginário e da comunicação.
 
Assim, tanto aquilo que é verbalizado como aquilo que é transmitido de um modo não verbal é susceptível de ser entendido e enquadrado num contexto específico. O discurso do indivíduo é o portal de acesso ao seu interior. Esse discurso é "decifrado" na relação estabelecida entre o psicólogo, o cliente, e quem faz o pedido para a consulta. O pedido de ajuda é, por si só, revelador. A intervenção da psicologia clínica reporta-se, pois, a uma metalinguagem.
 
Na sua intervenção social o psicólogo clínico demarca-se significativamente de outros profissionais de saúde mental, não tanto ao nível da prática (já que o objecto de estudo bem como a relação espistemológica em questão coexistem, por vezes, com outras áreas do saber), mas antes ao nível do método e do paradigma de referência. Por exemplo, não será demais pedir a um psicólogo clínico que use o Rorschach (prova de avaliação psicológica) com a competência com que um médico usa o estetoscópio.
 
O Papel do Psicólogo Clínico-2
A psicoterapia será certamente a melhor forma de, numa equipa de ligação, o
psicólogo ter uma acção concertada em prol do bem-estar dos utentes. Se
tratando-se de uma acção de multidisciplinaridade a componente médica de
uma qualquer especialidade como oncológica ou outra, com o médico de
família, juntamente com a médica psiquiátrica, mais a enfermagem, não tiver
o apoio de uma valência psicológica, poderá estar-se a menosprezar aspectos
de saúde mental importantes.
Cada vez mais se tenta em saúde mental desmedicalizar a situação. Toda a linha de actuação histórica aponta nesse sentido, numa evolução de uma lógica de tratamentos para uma lógica de cuidados, em deixar para trás ambientes demasiado pesados quanto a aspectos contextuais de institucionalização. Por isso certamente que em tratamento convencional se deve, particularmente em períodos agudos, optar pela utilização do recurso a medicação. Mas concomitante e em períodos de distensão a psicoterapia deverá ser optimizadora de situações.
 
Com o aproximar da psiquiatria à sociedade, numa perspectiva comunitária, mais este aspecto é revelador dessa proximidade social que envolve não só os
utentes mas igualmente na devida proporcionalidade operativa as famílias e
todo o meio envolvente. Esta perspectiva é deveras exigente para todo o
profissional mas será esta nova concepção aquela que pode salvar a pessoa
do utente no seu todo. Como dizia Ortega y Gasset: "o homem é ele e a sua
circunstância".
 
Teremos pois que deixar os nossos individualismos estéreis e caminharmos para uma nova atitude de actuação sistémica e é nisso que aponta toda a acção inovadora que está na base do trabalho de equipas de ligação em psiquiatra.
 
 
A perspectiva do Médico de Família
A ligação da psiquiatria aos cuidados de saúde primários vem culminar uma lacuna que se fazia sentir na assistência aos doentes na área da Saúde Mental. Efectivamente apesar de interligados há dois aspectos que para o médico de família, mais se fazem notar:
1 - Para o doente esta ligação vem não só travar ou atenuar a dificuldade de acesso a consultas psiquiátricas ao nível dos cuidados de saúde hospitalares, que se traduzia muitas vezes por longos períodos entre a data da marcação da consulta e a sua realização com o respectivo acréscimo de sofrimento, mas também gastos acrescidos de tempo e transportes assim como sobrecargas familiares muitas vezes desnecessárias, por resultarem do envolvimento e acompanhamento do doente á consulta hospitalar. Por outro lado o estigma da doença mental fica assim mais atenuado na medida em que a proximidade com a residência e o convívio com outros doentes, vizinhos ou conhecidos da comunidade, enquanto o doente espera pela sua vez na ante-sala de consulta, lhe mostra que não tem que sentir vergonha por ter uma perturbação mental. Isto propicia um ambiente de maior adesão á consulta e respectiva terapêutica.
2 – A proximidade com o psiquiatra favorece uma troca recíproca de conhecimentos e experiências vividas que permitirão, a ambos, uma abordagem bio-psico-social, tão própria da Medicina Familiar, mais completa em cada doente concreto.
 
O médico de família, reconhece que a interacção recíproca com o psiquiatra permite abordar informações clínicas respeitantes a dados de exames complementares de diagnóstico e patologias concomitantes, no sentido de um melhor diagnóstico diferencial e uma prestação de cuidados de saúde mais globais e com qualidade acrescida.
 
Também o isolamento a que o Médico de Família está habitualmente sujeito, é atenuado na relação com os colegas da Psiquiatria e com os outros colegas do Centro, nos dias de reunião com as equipas de Saúde Mental.